No primeiro painel intitulado “Ambientes Emergentes” dou principal relevância à comunicação da Dr.ª Ana Margarida Almeida da Universidade de Aveiro do Departamento de Comunicação e Arte, que nos apresentou a temática “Ambientes distribuídos de colaboração e aprendizagem para crianças com necessidades educativas especiais: o caso das crianças portadoras de Trissomia 21”.

Segundo a autora, foi desenvolvido um trabalho, com o qual se pretende encontrar oportunidades, através de um ambiente de aprendizagem rico, contextualizado e adaptado a sujeitos com necessidades educativas especiais. Penso que é de salientar, e passo a citar, “a deficiência é, sem dúvida, mais do que um fenómeno de disfunção mental ou motora, uma dinâmica multi-dimensional que inclui aspectos educacionais, comportamentais e sociais” (Ramos, 2002).

O público alvo do estudo apresentado são sujeitos portadores de trissomia 21. Depois de realizado um levantamento das especificidades deste sindroma, desenvolveu-se “uma plataforma tecnológica de comunicação distribuída de promoção da reabilitação de crianças com Trissomia 21 que permite que estas realizem trabalho colaborativo, numa abordagem distal de minimização de contactos proximais durante os momentos de aprendizagem”. (Ramos, 2002).

Surgiu então o modelo conceptual ANCORA, o qual pretende explorar potencialidades de estruturação e contextualização das aprendizagens e desenvolver um problema típico da trissomia 21: o sentido cronológico. Assim, este modelo “baseia-se em esquemas de construção narrativa, permitindo às crianças a participação e actividades específicas em função da manipulação de entidades (objectos, acções e personagens) e construções de cenários”.(Ramos, 2002) Para além desta abordagem,  este preocupa-se com processos de construção cognitiva e de aprendizagem sobre o paradigma construtivista e pós construtivista (o desenvolvimento social ocorre juntamente com o desenvolvimento cognitivo).

Este modelo foi testado através de um protótipo desenvolvido em numa plataforma distribuída em rede, de forma a permitir o acesso a utilizadores de zonas dispersas.

Funcionalidades do protótipo:

- Interacção em ambiente gráfico (interface simples e intuitivo que possibilita a manipulação directa de entidades assim como a integração de imagens, sons e animações);

- Gestão e controlo de utilizadores (validação de login e password e registo de novos utilizadores);

- Colaboração em ambiente distribuído (ferramentas de colaboração em rede para utilizadores geograficamente dispersos);

- Controlo de comunicações (transferência de informação entre utilizadores e com o servidor);

- Gestão de bases de dados (acesso a bases de dados, quer de utilizadores, quer de entidades, cenários, narrativas e dados das actividades);

- Partilha de white-board / construção dos cenários (manipulação directa (drag and drop) das entidades que constituem as bases de dados (objectos, personagens, acções) e visualização partilhada das mesmas por parte de crianças e terapeutas on-line);

- Devolução de sequência temporal/narrativa (possibilidade de, em função da ordem pela qual foi efectuado o drag and drop das entidades, devolver uma narrativa, ou seja, um pequeno texto no qual a sequência dos acontecimentos corresponde à das entidades no cenário; a narrativa é construída de acordo com labels de texto que se encontram associadas às entidades constituintes do cenário e através do recurso a elementos pré-definidos de ligação textual que asseguram a construção de um texto coerente);

- Encaixe das actividades (possibilidade de, em função das entidades, despoletar actividades de reabilitação contextualizadas relativamente às interacções efectuadas pelo grupo de crianças on-line; o protótipo desenvolvido integra 12 actividades diferentes (como seleccionar palavras, contar, fazer grupos de 5, etc.) em relação às quais é possível recolher, por parte do terapeuta on-line, dados relativos às performances das crianças, possibilitando, assim, uma avaliação dinâmica das mesmas);

- Transmissão de voz (possibilidade de transmissão de voz em tempo real de forma a assegurar comunicação síncrona entre terapeutas e crianças on-line);

- Transmissão de texto (possibilidade de transmissão de texto em tempo real, de forma a assegurar partilha de opiniões entre o terapeuta on-line e o acompanhante (adulto) da criança on-line).

(Ramos, 2004)

Todo o processo de avaliação do estudo foi realizado permitindo encontrar resultados significativos. Segundo a autora, nos pares com as mesmas dificuldades e motivações, encontravam-se semelhanças na partilha de sucessos e insucessos. As comunicações colaborativas, através da voz, registavam um aumento, assim como o sucesso e rapidez na realização de tarefas propostas.

Em conclusão e citando Ramos, “as crianças que participaram nesta experiência confirmaram a nossa convicção: o computador parece ser, de facto, uma ferramenta alternativa poderosa na aquisição de informação conceptual por parte das crianças portadoras de Trissomia 21.”

Commentary

  1. Maria João Gomes wrote on 15. Jun 2007

    Já conversamos informalmente sobre um dos aspectos que esta comunicação de que se faz eco no te blogue mais veio realçar… a quase total ausência (excepto a intervenÇão a que fez referência) de comunicações que se reportassem ao potencial das TIC no apoio ao cidadão com deficiência. Outras temáticas relacionadas merecem reflexão, nomeadamente como assegurar, por exemplo, que as práticas de e-learning melhorem a (info)inclusão social destes cidadãos em vez se se constituirem como mais um espaço de exclusão.

  2. Davide Martins wrote on 15. Jun 2007

    É certo que as novas tecnologias têm um potêncial enorme, mas também é garantido que se forem usadas levianamente só vão servir para aumentar o hiato entre as pessoas tecnologicamente educadas e os outros. A Internet, que surgiu como forma de incluir todas as pessoas numa rede global, acaba por ser uma faca de dois gumes: se por um lado existem aqueles que pertencem e usufruem da rede, existem outros que não beneficiam desse facto. Por isso é cada vez mais importante que esses problemas sejam seriamente considerados.

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